Carlos Magno (Carlos I) foi muito mais do que um conquistador e legislador: a sua figura fundiu-se com a épica medieval e, com isso, também o fizeram as armas que o acompanharam na memória coletiva. Neste artigo, vamos explorar em profundidade as espadas de Carlos Magno mais célebres — Joyosa e Durandarte —, o seu papel na literatura, a sua presença em museus e como a história e a lenda se entrelaçam em torno destes objetos.
Carlos Magno governou desde finais do século VIII e durante o século IX e o seu reinado foi decisivo para configurar a Europa medieval. No entanto, quando falamos das suas espadas, entramos num terreno híbrido: uma mistura de factos documentados, relatos hagiográficos e cantares de gesta que transmitiram valores, símbolos e legitimidade. Uma espada com nome era, na Idade Média, um símbolo de autoridade, identidade militar e crenças religiosas.
Por que as espadas se tornaram lendárias
Durante a Alta Idade Média, uma espada não era um simples utensílio militar: era a prolongação da honra do guerreiro. A partir do século VIII, a cristianização de armas e relíquias adicionou uma camada sagrada a muitos objetos. Nomear uma espada e atribuir-lhe propriedades — proteção contra venenos, brilho mutável, relíquias incrustadas — servia para conectar um governante ao divino e para dar coesão simbólica ao seu poder.
Esta prática está bem refletida nas tradições que cercam Carlos Magno e os seus paladinos. Em O Canto de Rolando, aparecem espadas com funções além do metal: Joyosa deslumbra, Durandarte contém relíquias e ambas encarnam a legitimidade da ordem carolíngia. Através dos cantares, estas armas transformaram-se em vetores narrativos que transmitiam valores cavalheirescos e religiosos a gerações posteriores.
Joyosa: o resplendor imperial
Joyosa (ou Joyeuse, que pode traduzir-se como “a alegre” ou “a jubilosa”) é a espada que a tradição associa diretamente a Carlos Magno. No poema épico O Canto de Rolando, é descrita como uma lâmina que brilha como o sol, capaz de mudar de cor até trinta vezes ao dia e de proteger o seu portador de venenos. Estas propriedades, embora fantásticas, servem para sublinhar a ideia de que o imperador e a sua esfera estavam sob uma tutela excecional.
A lenda também atribui a Joyosa uma conexão com relíquias cristãs: o punho conteria a ponta da lança de Longinus, que atravessou o lado de Cristo. Segundo a tradição popular, a espada foi forjada pelo ferreiro Galas e demorou três anos a ser completada por volta do ano 802 d.C., o que a liga ao apogeu do reinado carolíngio.
É a Joyosa do Louvre a espada autêntica?
A Joyosa conservada hoje no Louvre e, anteriormente, na Abadia de Saint-Denis, foi empregada — real ou simbolicamente — em cerimónias de coroação de reis franceses durante séculos. No entanto, a autenticidade histórica é objeto de debate. A Joyosa atual é uma peça composta por elementos de diferentes épocas e reconstruções:
- O pomo procede dos séculos X-XI e inclui motivos que recordam a arte escandinava.
- A cruz da empunhadura, com dois dragões alados, corresponde à segunda metade do século XII.
- O punho data dos séculos XIII-XIV.
- A lâmina é de estilo Oakeshott XII, própria da Idade Média, mas a sua montagem final e renovações posteriores complicam uma datação única.
Esta colagem cronológica não invalida o seu valor simbólico: durante séculos, a posse de Joyosa serviu para legitimar dinastias. Embora provavelmente não seja a espada original de Carlos Magno, a sua função como emblema de soberania torna-a uma das peças mais reproduzidas e veneradas no imaginário europeu.
Durandarte: a espada do paladino Rolando
Durandarte (Durandal) é a companheira do herói Rolando em O Canto de Rolando. A epopeia apresenta Rolando como sobrinho do imperador e um dos doze paladinos que encarnavam a juventude e o vigor da cavalaria franca. Durandarte aparece como uma espada indestrutível, que contém relíquias sagradas na sua empunhadura — um dente de São Pedro, sangue de São Basílio, cabelos de São Dionísio e um fragmento do manto da Virgem. Estas inclusões acentuam a sacralidade da arma e a aura dos paladinos carolíngios.
A Fenda de Rolando e o mito na paisagem
A tradição diz que, após a derrota na Batalha de Roncesvalles (778), Rolando tentou destruir Durandarte para que não caísse em mãos inimigas. Ao golpear a espada contra uma rocha, não a quebrou, mas provocou uma fissura que hoje é conhecida como a Fenda de Rolando nos Pirenéus. Segundo a lenda, a espada foi lançada e ficou incrustada num penhasco perto de Rocamadour. No Museu de Cluny, exibe-se uma espada ligada a esta tradição, embora — como acontece com Joyosa — a autenticidade absoluta seja difícil de provar.
Roncesvalles: história real e épica
A Batalha de Roncesvalles em 778 é um acontecimento histórico que, pelo seu dramatismo e as suas repercussões, se tornou matéria literária. Na realidade, as tropas carolíngias sofreram uma emboscada dos vascões que atacaram a retaguarda logística do exército. Na epopeia, o acontecimento transforma-se numa batalha heroica onde Rolando e os seus paladinos caem em combate frente a um exército sarraceno gigantesco. Esta reelaboração poética serviu para construir modelos heroicos e reforçar a legitimidade da dinastia carolíngia.
Joyosa e Durandarte na construção simbólica do poder
Ambas as espadas mostram como a materialidade (um objeto, uma lâmina forjada) pode converter-se em símbolo político. Para os monarcas medievais, reclamar a herança de Carlos Magno significava mais do que uma genealogia: era apropriar-se de um legado simbólico que legitimava a soberania. Joyosa funcionou exatamente nessa direção: ainda que a sua manufatura seja compósita, o seu uso em coroações conectava os novos reis com a aura imperial carolíngia.
Durandarte, por sua vez, encarna o ideal do cavaleiro sacrificado e vincula a figura do vassalo exemplar à proteção da cristandade. A arma deixa de ser uma arma para ser testemunha e relíquia: na sua empunhadura guardam-se fragmentos que servem como prova física de uma conexão com o sagrado.
Outras espadas lendárias: contexto europeu
As espadas lendárias não são exclusivas da tradição carolíngia. Ao longo da Europa aparecem objetos com histórias semelhantes: Excalibur do ciclo arturiano, as espadas do Cid (Tizona e Colada), a Curtana da coroa britânica ou a Lobera de Fernando III. Estas armas partilham características: nomes que as individualizam, relatos de origem milagrosa ou hagiográfica e um papel em rituais de legitimação.
- Joana d’Arc procurou uma espada “proveniente do céu” que se encontrou em Santa Catarina de Fierbois.
- A espada incrustada de São Galgano na Toscana recorda o tema da conversão e da entrega.
- Excalibur e o seu vínculo com a soberania ilustram a relação entre símbolo e poder dinástico.
Onde ver, estudar e comprar réplicas
Se quiser ver uma peça que historicamente se tem associado a Joyosa, o Louvre dispõe da espada que durante séculos foi empregada em cerimónias reais. O Museu de Cluny em Paris conserva também peças relacionadas com a tradição de Durandarte. Estes museus permitem aproximar-se da materialidade e das restaurações que modificaram as peças ao longo do tempo.
Para quem deseja uma réplica ou uma peça de colecionismo, a oferta atual é ampla: reproduções de Joyosa e Durandarte, espadas inspiradas no estilo carolíngio e peças artesanais realizadas com critérios históricos. Se lhe interessa adquirir uma réplica de qualidade, pode encontrar opções na nossa loja online, onde selecionamos reproduções que respeitam proporções, decorações e estilos baseados em fontes medievais.
Conselhos para escolher uma réplica histórica
- Defina o propósito: decoração, recriação histórica ou uso em esgrima recreativa.
- Materiais: procure aço carbono ou inox de boa qualidade e verifique o tratamento térmico.
- Proporções: as espadas carolíngias costumam ter lâminas relativamente curtas e robustas em comparação com modelos posteriores.
- Acabamentos e detalhes: empunhaduras com motivos inspirados na Alta Idade Média, cruzetas com motivos animais ou geométricos.
Se não tem certeza sobre qual réplica se adapta às suas necessidades, na nossa loja online oferecemos aconselhamento para selecionar a peça adequada segundo o uso e orçamento.
A investigação moderna e as técnicas de datação
A análise de espadas históricas combina a história do objeto, a arqueometria e a conservação. Técnicas como a datação por termoluminescência (em elementos cerâmicos associados), análise metalográfica, observação de forjas e estilos decorativos permitem situar peças em períodos aproximados. No caso de Joyosa e Durandarte, a mistura de elementos de diferentes épocas obriga a uma leitura crítica: muitas peças que hoje vemos em vitrines são o resultado de restaurações e recomposições efetuadas entre a Idade Média e a Idade Moderna.
Estudar estas pistolas históricas (e espadas) requer uma abordagem interdisciplinar: historiadores da arte, arqueólogos, conservadores e especialistas em metalurgia trabalham juntos para traçar biografias materiais plausíveis.
O valor cultural das espadas de Carlos Magno
Para além da sua manufatura, as espadas de Carlos Magno são vetores de identidade cultural. Representam uma ponte entre o facto histórico — um homem que governou um vasto território — e a representação simbólica desse poder. Em festivais históricos, museus e coleções privadas, Joyosa e Durandarte continuam a alimentar narrativas sobre legitimidade, heroísmo e fé.
As reproduções contemporâneas permitem a historiadores, artesãos e aficionados experimentar a forma e o peso de uma espada carolíngia, o que por sua vez enriquece a compreensão do combate medieval, a ergonomia e as técnicas de forja tradicionais.
O que estas lendas nos ensinam hoje?
Ao analisar Joyosa, Durandarte e outras armas lendárias, compreendemos como as sociedades constroem símbolos para sustentar narrativas políticas e religiosas. Uma espada que brilha ou que contém relíquias não só afirma a excecionalidade do seu portador, mas também atua como dispositivo pedagógico: ensina o que se valoriza na época — valor, piedade, lealdade e vínculo com o divino.
Além disso, a persistência destas histórias demonstra o poder da oralidade e da literatura para transformar acontecimentos concretos (uma emboscada em Roncesvalles) em mito fundador que legitima ordens culturais e políticas.
Para quem se aproxima do colecionismo ou da recriação, estas peças oferecem uma experiência sensorial e educativa: a manipulação de uma réplica bem feita permite imaginar as manobras e as sensações do combate medieval.
Reflexão final
As espadas de Carlos Magno — Joyosa e Durandarte — são muito mais do que armas: são símbolos que condensam fé, poder, memória e narração. Mesmo quando a história crítica mostra que as peças conservadas são frequentemente compósitos e restaurações, a sua influência como ícones perdura. Visitar os museus, estudar as peças e, para os interessados, adquirir réplicas na nossa loja online, são formas de conectar com essa herança material e simbólica que ainda ilumina parte da identidade europeia.















