Diz a lenda que, ao cruzar a porta de uma capela templária pela primeira vez, sentia-se que o mundo se reduzia ao branco do hábito, ao vermelho da cruz e ao silêncio dos votos. Essa imagem, poderosa e simples, resume por que as cruzes templárias continuam a fascinar: não são meros adornos, são emblemas que condensam fé, guerra, ritual e poder simbólico.
As origens e o simbolismo da cruz templária
A Ordem do Templo nasceu em Jerusalém no início do século XII com a intenção de proteger os peregrinos que viajavam para os Lugares Santos. Entre a sua indumentária e marcas de identidade, a cruz ocupou um lugar central. Em 1147, o Papa Eugénio III consagrou formalmente o uso de uma cruz vermelha que os cavaleiros usariam no seu manto branco, convertendo um sinal de pertença num símbolo público de martírio, sacrifício e compromisso.
A cruz templária não era única no seu desenho: ao longo do tempo e do espaço, os irmãos do Templo, os seus sargentos e as suas comendas utilizaram variantes que respondiam a hierarquias, regiões ou significados específicos. Esse mosaico de formas permite hoje rastrear usos religiosos, militares e até criptográficos dentro da Ordem.
Cronologia essencial
Para entender a evolução das cruzes templárias é útil rever uma cronologia condensada que coloque datas, decisões e marcos em ordem.
| Ano | Acontecimento relevante |
|---|---|
| 1118-1119 | Fundação da Ordem do Templo em Jerusalém por Hugo de Payens e outros cavaleiros. |
| 1147 | O Papa Eugénio III autoriza oficialmente o uso da cruz vermelha pela Ordem, consolidando o seu emblema. |
| Séculos XII-XIII | Diversificação de cruzes (pátea, tau, grega, jerusalém) segundo regiões e funções. |
| Finais do século XIII | As comendas e selos templários mostram variedade iconográfica; aparecem cruzes em lápides e arquitetura. |
| 1307 | Começam as detenções em massa de templários em França; símbolos da Ordem passam a interpretações variadas. |
| 1312 | Dissolução oficial da Ordem pela bula papal Vox in excelso; iconografia templária dispersa-se. |
| Idade Moderna e Contemporânea | A cruz templária reaparece em heráldica municipal, associações e na cultura popular com novas interpretações. |
Tipos de cruzes: formas, significados e exemplos históricos
Não existe um catálogo definitivo de todas as cruzes que os templários usaram, mas podemos identificar várias que foram especialmente relevantes em documentação, arquitetura e objetos rituais. Segue-se um percurso pelas variantes mais representativas.
Cruz Latina
Descrição: A cruz com o braço inferior mais longo; a imagem religiosa clássica na cristandade ocidental. Uso templário: Muito presente em igrejas monásticas beneditinas e nas igrejas de peregrinação do românico e gótico, sobretudo ao longo do Caminho de Santiago; em Espanha a cruz latina associou-se desde cedo à presença templária.

Cruz Pátea (Croix Pattée)
Descrição: Braços que se estreitam em direção ao centro e se alargam nas extremidades; a forma evoca uma pata ou barbatanas. Significado: Simboliza abertura aos quatro pontos cardeais, aos evangelistas e aos elementos.
Contexto histórico: Esta cruz é uma das mais reconhecidas como “emblema templário”. Aparece com frequência em selos, edifícios e documentos vinculados à Ordem. A cor também era um marcador: a cruz pátea vermelha associa-se aos templários, a branca aos Hospitalários e a preta aos Teutónicos.
Cruz Tau
Descrição: Com a forma da letra T (tau); simples mas carregada de significado. Significado simbólico: Associada ao sagrado e em alguns contextos com hierarquia interna dentro da Ordem. A Tau é uma letra com raízes hebraicas e gregas e conexões com práticas cristãs antigas, como o culto a Santo Antão. Para os templários pôde funcionar como um símbolo de eleição divina (eleito de Deus) e como um sinal de reserva ritualista.
Cruz Patriarcal
Descrição: Cruz com uma barra superior adicional; aparência de barra tripla. Uso: Associada a hierarquias e relicários dentro da Ordem. Alguns testemunhos indicam que foi uma das primeiras cruzes que os templários usaram por volta do ano 1118, usada sobre o braço esquerdo no seu manto branco e pintada de cor vermelha em certas ocasiões.
Cruz Celta / Cruz de Malta
Descrição: Cruzes com extremidades decorativas que podem terminar em pontas ou em semicírculos; a variante dos Hospitalários e a dos templários apresentam diferenças nos remates. Significado: Está ligada a motivos octogonais e a um simbolismo mais amplo que conecta com as chamadas oito bem-aventuranças, às vezes representadas em cruzes de oito pontas.
Cruz de Jerusalém
Descrição: Uma cruz central com quatro cruzes mais pequenas nos quadrantes. Interpretação: Os quatro remates retos foram lidos como as quatro esquinas do mundo, os quatro evangelistas ou os quatro elementos. Era um emblema de presença em campanha e de conexão com a cidade santa de Jerusalém.
Cruz Bizantina / Grega
Descrição: Braços iguais que se cruzam no centro, às vezes com remates pontiagudos; forma comum na tradição ortodoxa. Uso: Encontrada em comendas e em iconografia que conecta a influência oriental na cristandade medieval.
Como identificar uma cruz templária em pedra, selo ou tecido
Ler uma cruz num suporte histórico exige atenção ao contexto. Nem qualquer cruz vermelha ou pátea é automaticamente templária; há indicadores que nos ajudam a estabelecer uma relação plausível:
- Localização: As igrejas vinculadas a comendas templárias, os caminhos de peregrinação e os locais de antigas posses são um primeiro indício.
- Material e técnica: Selos e lápides com cruzes em relevo datam frequentemente da alta Idade Média; a técnica de entalhe ou selo pode ajudar a datar o objeto.
- Iconografia complementar: Figuras de cavaleiros, motivos de cavalo único, inscrições cristãs ou motivos de peregrinação amplificam a probabilidade de relação com o Templo.
- Cor e disposição: Em têxteis, a presença de uma cruz vermelha sobre branco no braço esquerdo ou no manto é um forte indicador, embora não exclusivo.
Tabela comparativa: tipos de cruz, características e contexto
| Tipo | Características | Contexto / Uso |
|---|---|---|
| Cruz Pátea | Braços que se alargam nas extremidades, forma simétrica | Selos, edifícios, distintivo de ordens militares |
| Cruz Tau | Forma de T, simples | Hierarquias internas, simbolismo ritual |
| Cruz Patriarcal | Barra superior adicional | Relicários, insígnias de patente |
| Cruz de Jerusalém | Cruz central com quatro pequenas | Símbolo de campanhas e conexão com a Terra Santa |
| Cruz Grega / Bizantina | Braços iguais, estética oriental | Comendas e arte com influência oriental |
A cruz templária na vida material: selos, estandartes e reproduções
Os templários não só usavam cruzes na sua roupa: plasmavam-nas em selos que certificavam atos, em lápides que marcavam túmulos, em estandartes que ondeavam em campanha e em relíquias que prezavam. Essa presença material explica por que hoje as réplicas e os motivos templários aparecem com tanta frequência nas reproduções históricas e na iconografia popular.

Quando observares uma réplica, repara na fidelidade dos remates, no tipo de esmalte e no modo de fixação: as peças que respeitam proporções e técnicas históricas transmitem melhor a sensação de autenticidade. Ao mesmo tempo, muitas variações regionais e temporais permitem licenças artísticas sem quebrar a coerência histórica.
Réplicas, estandartes e espadas: o sinal que acompanha o objeto
As reproduções comerciais são uma ponte entre o presente e o passado. Ao usar uma cruz templária num estandarte ou gravada numa espada, o que se procura é uma conexão simbólica com a narrativa do Templo: sacrifício, proteção do peregrino e ordem guerreira.
Regionalismos e variações: como o território moldou a cruz
A forma da cruz frequentemente responde a uma geografia simbólica: em Portugal e em regiões de influência ocidental a cruz pátea teve maior presença; na Galiza e em Leão a Tau aparece em contextos monásticos; em Castela e zonas com forte vínculo com a Terra Santa documentam-se cruzes de tipo grego ou latino. Esta biodiversidade simbólica não só revela gostos estéticos, mas também redes de contacto, influências litúrgicas e disputas de poder entre ordens.
A dimensão esotérica e criptográfica
Algumas fontes indicam que certos desenhos de cruz serviram de base para alfabetos secretos e códigos internos. A cruz de oito pontas e outras variações octogonais foram interpretadas como chaves para sistemas de codificação em documentos comerciais ou mensagens confidenciais. Embora a evidência direta seja limitada, o uso de símbolos partilhados e sinais particulares em correspondência e selos tornam plausível a existência de convenções simbólicas reconhecíveis para os membros da Ordem.
Legado, heráldica e reinterpretações modernas
Após a dissolução da Ordem, os seus símbolos não desapareceram: reapareceram em heráldica local, em lápides medievais reinterpretadas e, séculos depois, na cultura popular. A cruz templária foi adotada por muito diversas organizações, às vezes com fins de prestígio ou misticismo. Em alguns escudos municipais contemporâneos, como o caso mencionado de Villamediana de Iregua, a cruz atua como uma ponte entre uma memória lendária e uma identidade local moderna.
Como ler a cruz hoje: chaves para o amador e o investigador
- Pergunta pelo contexto: Onde foi encontrada a cruz? Em que suporte? O dado arqueológico continua a ser a peça chave.
- Interroga a técnica: O modo como se entalha, pinta ou imprime uma cruz ajuda a datá-la e a situá-la numa tradição artística concreta.
- Procura correspondentes: Selos, inscrições ou motivos próximos (animais, figuras humanas, cenas religiosas) apontam para conexões com ordens ou famílias.
- Não pressuponhas exclusividade: Muitas cruzes foram usadas por distintas ordens e comunidades; a identificação exige provas acumulativas.
Histórias em pedra: exemplos reais de cruzes templárias
As lápides e selos conservados contam histórias de homens e lugares. Na península ibérica, múltiplas paróquias mostram cruzes páteas em chaves de arco e cachorros; em França, o Vexin regista uma densidade notável de cruzes páteas que foi reinterpretada por sociedades posteriores como símbolo de antiguidade ou mistério.
Estes rastros tangíveis permitem conectar a estética da cruz com usos comunitários concretos: recordar quedas em batalha, marcar doações de terras ou assinalar a tutela templária sobre um hospital ou albergue de peregrinos.
Da história ao objeto: tatuagens temporárias e reprodução simbólica
A permanência da cruz templária na imaginação coletiiva manifesta-se também em objetos contemporâneos que reproduzem as suas formas. Um exemplo moderno são as tiras de tatuagens temporárias com desenhos de cruzes medievais, que permitem a aficionados e recriadores usar por um tempo a marca simbólica sem modificar a pele de forma permanente.

Reflexão final para o aficionado
As cruzes templárias ensinam-nos que um símbolo não é estático: muda com o tempo, reinterpreta-se e reencontra-se em contextos novos. Ao olhar para uma cruz pátea esculpida em pedra ou uma tau pintada num manuscrito, estás a traçar uma linha com homens que viveram a tensão entre o voto monástico e a guerra, entre a devoção e a pragmática do poder.
Se te apaixona a iconografia medieval, procura o rasto material: selos, lápides e tecidos conservados. Ali encontrarás uma história complexa, cheia de nuances, que vai muito além do mito romântico e que, no entanto, conserva esse brilho épico que continua a alimentar a imaginação.














