Já alguma vez se perguntou que segredos e batalhas encerram as lendárias espadas do mundo árabe? Estas não eram simples armas; eram extensões do guerreiro, símbolos de poder e obras de arte forjadas com um propósito. Das areias do deserto às ricas cortes de Al-Andalus, quatro nomes ressoam com uma força inabalável: a cimitarra, o alfange, a kabila e a jineta. Cada uma, um capítulo vital na crónica da guerra e da cavalaria. Prepare-se para descobrir a história, o design e o legado destas maravilhas da ferraria que definiram uma era.

A Cimitarra: O sabre curvo que dominou o Oriente
A cimitarra, esse nome evocativo que o Ocidente adotou para descrever um conjunto de sabres curvos islâmicos, é muito mais do que uma simples espada. É um emblema, uma arma de lenda que encarna a agilidade e a eficácia no combate. Com a sua lâmina longa, fina, leve e marcadamente curva, desenhada para cortes fluidos sem encravar, a cimitarra tornou-se o terror dos seus inimigos, especialmente nas mãos da cavalaria. A sua origem remonta à antiga Pérsia, por volta do século IX, mas a sua influência estendeu-se por todo o Médio Oriente, adaptando-se e evoluindo em diversas variantes como o shamshir persa, o kilij otomano ou o talwar indiano.
O Alfange: A força do golpe na Península Ibérica
O alfange, cujo nome deriva do árabe “al-janyar” (punhal), é uma espada híbrida que foi forjada no crisol cultural da Península Ibérica e do Mediterrâneo. Mais larga e pesada que a cimitarra, distingue-se pela sua curvatura pronunciada no último terço da lâmina, otimizada para desferir golpes devastadores. Esta arma de uma só mão, muitas vezes canelada, tornou-se uma ferramenta formidável tanto em combate corpo a corpo como em ambientes mais fechados. O seu legado não reside apenas na sua eficácia, mas em como representou a fusão de estilos bélicos árabes e europeus, uma verdadeira joia da ferraria medieval e renascentista.
A Kabila: Um híbrido de design e funcionalidade
Menos conhecida, mas igualmente fascinante, é a kabila, ou flyssa como a conheceram os franceses. Esta espada é um testemunho da engenhosidade tribal berbere do Magrebe. O seu segredo? Um design híbrido que pega na lâmina curva e longa da cimitarra, mas a une ao punho caraterístico da jineta nazarí, mais estreito e plano e muitas vezes sem guarda. Com uma lâmina estreita e uma ponta afiada, a kabila foi desenhada para a estocada, tornando-a uma arma letal nas escaramuças em terrenos montanhosos. O seu punho, talhado com intrincadas incrustações de latão, não era apenas funcional, mas também um distintivo cultural da artesania Kabyle.
A Jineta: O poder e a elegância Nazarí
A jineta, a espada nazarí por excelência, é a herança mais rica e direta da panóplia hispano-árabe. Ao contrário das suas primas curvas, a jineta caracteriza-se por uma lâmina reta de dois gumes, muitas vezes com um canal central até à metade. Mas a sua verdadeira distinção reside na sua magnífica empunhadura: ossiforme, curta e desenhada para uma só mão, com arriazes elegantemente curvados que caem em direção à lâmina. Para além da sua eficácia na cavalaria ligeira que praticava a “monta à jineta”, esta espada era um símbolo de altíssimo estatuto, ricamente decorada com filigranas, damasquinados e nielados em ouro e prata, como a famosa jineta de Boabdil, um troféu de guerra que se conserva até aos dias de hoje.

Evolução histórica das espadas árabes e relacionadas
A história das armas brancas no mundo islâmico e na península ibérica segue duas grandes linhas: o desenvolvimento do sabre curvo no Médio Oriente (cimitarra e variantes como o shamshir) e a tipologia reta/ligeiramente curva ligada a Al-Andalus e ao Reino Nazarí (a jineta e o alfanje). A tabela seguinte ordena cronologicamente os principais marcos apresentados nos dados, desde os primeiros testemunhos até à documentação colonial de armas tribais.
| Época | Evento |
|---|---|
| Antiguidade e origens | |
| 4.º milénio a.C. | Documentação de espadas retas no Planalto Iraniano (Pérsia), tipologia de dois gumes própria das culturas pré-persas. |
| Alta Idade Média (séculos VII–IX) | |
| 631 d.C. | Conquista árabe do Irão e introdução do Islão; as dinastias persas anteriores usavam espadas retas de dois gumes. |
| Século VII | A cultura muçulmana adquire autonomia cultural; aparecem espadas ligeiramente curvas no nordeste do Irão. |
| Séculos VIII–XIII | Durante o apogeu do Califado Abássida, as espadas curvas começam a difundir-se pelo Médio Oriente e norte de África. |
| Século IX | Primeiros exemplos documentados de espada curva (cimitarra) na era abássida, especialmente em Coração; a cimitarra já aparece registada no Médio Oriente. |
| Plena Idade Média (séculos XI–XIV) | |
| Século XI | As espadas ligeiramente curvas são integradas no armamento oficial no Irão. |
| Século XII | As espadas curvas tornam-se a arma principal do exército iraniano; aparece a forma persa denominada shamshir. |
| Segunda metade do século XII | Saladino (Ṣalāḥ al-Dīn) é culturalmente associado à cimitarra como arma representativa do mundo muçulmano no Próximo Oriente. |
| Século X (contexto hispano-árabe) | Presença documentada da monta à jineta em Al-Andalus (testemunhos como o píxide de al‑Mughira) que evidenciam técnicas equestres próprias. |
| Século XIII | Na Península, a espada jineta começa a ser usada regularmente por muçulmanos; o alfange é empregado desde a Idade Média e perdura até ao Renascimento. |
| 1275 | 14 de maio: desembarque do emir Abu‑Zayán com tropas dos Benu‑Merín (zenetes) em Tarifa, introduzindo a técnica zenete na guerra peninsular. |
| Baixa Idade Média (séculos XIV–XV) | |
| Início do século XIV | A monta à jineta é adotada por cavaleiros cristãos fronteiriços (ex. Joan Ponçe de Còrdova, incursão de 1319). |
| Década de 1330 | A corte real castelhana, incluindo escudeiros e donzelos, começa a adotar o estilo e o vestuário à jineta de influência mourisca. |
| 1340 | Documentação de espadas jinetas por Álvaro Soler del Campo; pinturas murais da Casita do Partal (época de Yūsuf I) representam armamento nazarí. |
| 1348 | As Cortes de Alcalá de Henares registam que “na fronteira com o reino de Múrcia, todos andam à jineta”. |
| Meados/segunda metade do século XIV | O estilo jineta consolida-se no Reino Nazarí de Granada; a jineta ceremonial atribuída a Boabdil data da época do segundo emirado de Muḥammad V (1362–1391). |
| 1379 | Legislação sumptuária nas Cortes de Burgos excetua os “da jineta da Andaluzía”, permitindo-lhes usar espadas e elementos dourados. |
| 1390 | As Cortes de Guadalajara ordenam aos vassalos da Andaluzia e de Múrcia que montem “à jineta”. |
| Transição tardo-medieval – Renascença (séculos XV–XVI) | |
| Século XV | Os cristãos adotam e fabricam a espada jineta. Também se relaciona a origem da espada turca kılıç com este século. |
| 1431 | Após a Batalha de Sierra Elvira/La Higueruela, a técnica africana zenete, aceita por hispano‑muçulmanos, é assimilada por cavaleiros cristãos. |
| 1483 (20 de abril) | Captura de Boabdil na Batalha de Lucena; a sua espada jineta de cerimónia foi tomada como troféu. |
| 1487 | Registo adicional relacionado com a captura da espada de Boabdil na batalha de Lucena (figura nas fontes como facto associado à queda nazarí). |
| 1492 | Conquista de Granada: fim do sultanato nazarí e conclusão do episódio hispano‑árabe na península. |
| 1501 | Cédula dos Reis Católicos que permite dourar os fios nos jaezes da jineta (regulação de elementos sumptuários relacionados com a jineta). |
| 1514 | O termo “cimitarra” aparece em textos de cavalaria em Espanha, vinculado ao imaginário muçulmano; o seu uso massivo na Península não é constatado até ao século XVI. |
| Idade Moderna (séculos XVI–XIX) | |
| Séculos XV–XVI (aprox.) | As espadas iranianas aumentam gradualmente a sua curvatura; atingem grande curvatura e popularidade nos séculos XVI–XVII. O shamshir persa populariza-se no início do século XVI. |
| Séculos XVI–XIX | As espadas persas muito curvadas (shamshir) continuam a ser o tipo preferido nos campos de batalha dos exércitos persas. |
| Séculos XVI–XVIII | Possível influência do sabre turco yatagan no armamento da Cabília (norte da Argélia), iniciando transformações em lâminas locais. |
| Século XVIII | Provável surgimento da flyssa ou kabila, a lâmina distintiva dos kabyles (Cabília), que se tornará um traço identitário regional. |
| Época contemporânea e documentação colonial (séculos XIX–XX) | |
| 1830–1962 | Período colonial francês na Argélia: a flyssa ganha reconhecimento e é documentada por colecionadores e etnógrafos europeus. |
- Antiguidade e origens
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- 4.º milénio a.C.: Documentação de espadas retas no Planalto Iraniano (Pérsia), tipologia de dois gumes própria das culturas pré-persas.
- Alta Idade Média (séculos VII–IX)
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- 631 d.C.: Conquista árabe do Irão e introdução do Islão; as dinastias persas anteriores usavam espadas retas de dois gumes.
- Século VII: A cultura muçulmana adquire autonomia cultural; aparecem espadas ligeiramente curvas no nordeste do Irão.
- Séculos VIII–XIII: Durante o apogeu do Califado Abássida, as espadas curvas começam a difundir-se pelo Médio Oriente e norte de África.
- Déc. IX: Primeiros exemplos documentados de espada curva (cimitarra) na era abássida, especialmente no Coração; a cimitarra já aparece registada no Médio Oriente.
- Plena Idade Média (séculos XI–XIV)
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- Século XI: As espadas ligeiramente curvas são integradas no armamento oficial no Irão.
- Século XII: As espadas curvas tornam-se a arma principal do exército iraniano; aparece a forma persa denominada shamshir.
- Segunda metade do século XII: Saladino (Ṣalāḥ al-Dīn) é culturalmente associado à cimitarra como arma representativa do mundo muçulmano no Próximo Oriente.
- Século X (contexto hispano-árabe): Presença documentada da monta à jineta em Al-Andalus (testemunhos como o píxide de al‑Mughira) que evidenciam técnicas equestres próprias.
- Século XIII: Na Península, a espada jineta começa a ser usada regularmente por muçulmanos; o alfange é empregado desde a Idade Média e perdura até ao Renascimento.
- 1275: 14 de maio: desembarque do emir Abu‑Zayán com tropas dos Benu‑Merín (zenetes) em Tarifa, introduzindo a técnica zenete na guerra peninsular.
- Baixa Idade Média (séculos XIV–XV)
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- Início do século XIV: A monta à jineta é adotada por cavaleiros cristãos fronteiriços (ex. Joan Ponçe de Còrdova, incursão de 1319).
- Década de 1330: A corte real castelhana, incluindo escudeiros e donzelos, começa a adotar o estilo e o vestuário à jineta de influência mourisca.
- 1340: Documentação de espadas jinetas por Álvaro Soler del Campo; pinturas murais da Casita do Partal (época de Yūsuf I) representam armamento nazarí.
- 1348: As Cortes de Alcalá de Henares registam que “na fronteira com o reino de Múrcia, todos andam à jineta”.
- Meados/segunda metade do século XIV: O estilo jineta consolida-se no Reino Nazarí de Granada; a jineta ceremonial atribuída a Boabdil data da época do segundo emirado de Muḥammad V (1362–1391).
- 1379: Legislação sumptuária nas Cortes de Burgos excetua os “da jineta da Andaluzía”, permitindo-lhes usar espadas e elementos dourados.
- 1390: As Cortes de Guadalajara ordenam aos vassalos da Andaluzia e de Múrcia que montem “à jineta”.
- Transição tardo-medieval – Renascença (séculos XV–XVI)
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- Século XV: Os cristãos adotam e fabricam a espada jineta. Também se relaciona a origem da espada turca kılıç com este século.
- 1431: Após a Batalha de Sierra Elvira/La Higueruela, a técnica africana zenete, aceita por hispano‑muçulmanos, é assimilada por cavaleiros cristãos.
- 1483 (20 de abril): Captura de Boabdil na Batalha de Lucena; a sua espada jineta de cerimónia foi tomada como troféu.
- 1487: Registo adicional relacionado com a captura da espada de Boabdil na batalha de Lucena (figura nas fontes como facto associado à queda nazarí).
- 1492: Conquista de Granada: fim do sultanato nazarí e conclusão do episódio hispano‑árabe na península.
- 1501: Cédula dos Reis Católicos que permite dourar os fios nos jaezes da jineta (regulação de elementos sumptuários relacionados com a jineta).
- 1514: O termo “cimitarra” aparece em textos de cavalaria em Espanha, vinculado ao imaginário muçulmano; o seu uso massivo na Península não é constatado até ao século XVI.
- Idade Moderna (séculos XVI–XIX)
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- Séculos XV–XVI (aprox.): As espadas iranianas aumentam gradualmente a sua curvatura; atingem grande curvatura e popularidade nos séculos XVI–XVII. O shamshir persa populariza-se no início do século XVI.
- Séculos XVI–XIX: As espadas persas muito curvadas (shamshir) continuam a ser o tipo preferido nos campos de batalha dos exércitos persas.
- Séculos XVI–XVIII: Possível influência do sabre turco yatagan no armamento da Cabília (norte da Argélia), iniciando transformações em lâminas locais.
- Século XVIII: Provável surgimento da flyssa ou kabila, a lâmina distintiva dos kabyles (Cabília), que se tornará um traço identitário regional.
- Época contemporânea e documentação colonial (séculos XIX–XX)
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- 1830–1962: Período colonial francês na Argélia: a flyssa ganha reconhecimento e é documentada por colecionadores e etnógrafos europeus.

Desvendando incógnitas sobre as espadas clássicas árabes e nazaris
Qual é a diferença principal entre a cimitarra e a kabila?
A diferença principal entre a cimitarra e a kabila é que a cimitarra é uma espada árabe com lâmina longa, curva, ligeira e com um só gume desenhada para cortes e estocadas, enquanto a kabila é um híbrido que combina a lâmina curva e longa da cimitarra com a empunhadura (cabo) caraterística da jineta nazarí, que é mais estreita e plana. Em resumo, a kabila tem a lâmina de cimitarra mas o design do cabo da jineta.
Que materiais eram utilizados para fabricar as empunhaduras das jinetas?
As empunhaduras das espadas jinetas eram fabricadas com materiais de alta qualidade e grande valor decorativo, como bronze dourado, prata, ouro (em forma de filigranas), marfim e esmaltes.
Como a cultura nazarí influenciou o design da jineta?
A cultura nazarí influenciou o design da jineta ao desenvolver um tipo de espada genuinamente nazarí, caraterizada por uma lâmina reta de dois gumes com um arriaz semicircular em direção à lâmina, empunhadura rica em decoração com inscrições árabes e técnicas de damasquino e nielado em ouro e prata, refletindo um estilo de luxo e simbolismo próprio desta dinastia muçulmana do Reino de Granada. Esta espada foi criada para a cavalaria ligeira que utilizava a técnica de montar “à jineta”, favorecendo um combate ágil e eficaz próprio da guerra nazarí e andaluza.
O design da jineta foi um produto original da cultura nazarí que combinou funcionalidade para a cavalaria ligeira com uma decoração artística requintada inspirada na estética islâmica, evidenciando influências magrebinas e orientais para além da identidade cultural nazarí.
Que caraterísticas tornam única a espada alfange?
As caraterísticas que tornam única a espada alfange são a sua lâmina larga e curva, tipicamente com gume de um só lado e em alguns casos contra-gume no último terço, o que a otimiza para golpes eficazes. É mais curta e pesada que os sabres orientais, com um alargamento na parte forte da lâmina perto da ponta, onde impacta o golpe. Além disso, costuma ter guarda em forma de “S” perto do punho e o seu design reflete uma mistura cultural entre civilizações muçulmanas e cristãs, especialmente na península ibérica e no Mediterrâneo durante a Idade Média e o Renascimento. Esta combinação de forma, funcionalidade e herança cultural distingue-a de outras espadas curvas como o falchion ou o bracamarte.
Em que contextos históricos eram utilizadas as espadas árabes?
As espadas árabes eram utilizadas principalmente em contextos históricos bélicos e cerimoniais dentro das sociedades islâmicas e árabes desde a época pré-islâmica até à Idade Média. Eram armas comuns entre os guerreiros árabes durante as conquistas islâmicas e o Califado Abássida (séculos VIII a XIII), empregadas especialmente em combate a cavalo devido ao seu design, fosse com lâmina reta ou curva, como a cimitarra ou o shamshir. Além disso, tinham um grande valor simbólico como emblemas de poder, honra e estatuto social, e eram usadas em cerimónias e atos rituais vinculados à cultura islâmica. Também fizeram parte da tradição militar em regiões que abrangeram o Médio Oriente, o Magrebe, Al-Andalus e se estenderam até à Ásia e África. O seu uso marcou o estilo de combate e a cultura militar de impérios como o otomano, persa e mogol, e foram conservadas como símbolos de linhagem e prestígio familiar.
Do deserto à Península, da agilidade na montaria à suntuosidade da corte, as espadas árabes forjaram legados inesquecíveis. Cada uma destas quatro espadas essenciais – a cimitarra, o alfange, a kabila e a jineta – narra-nos uma história de engenho, adaptação e uma arte marcial profundamente enraizada na sua cultura. São o reflexo de um tempo onde o metal e o espírito se uniam para escrever epopeias. Explorar as suas réplicas é tocar um fragmento dessa grandeza, conectando o presente com o eco de batalhas e cerimónias milenares.
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