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Bestas medievais: história, tecnologia e legado de uma arma que mudou a guerra

O que era uma besta medieval e porque é que a sua mera presença modificava o ritmo da batalha? Imagina a calma tensa antes de um assalto: nos muros, um besteiro prepara o seu instrumento, esticando a corda entre palas de madeira ou metal, enquanto no campo os cavaleiros procuram um alvo que muitas vezes já não está a salvo da seta invisível que atravessa a distância. Este artigo explora a besta medieval desde a sua origem até ao seu legado: design, mecanismos de carregamento, táticas, mitos sociais e como interpretar as suas réplicas hoje.

Porque é que a besta marcou uma época

A besta não foi uma simples variação do arco: foi uma máquina de guerra que condensou potência, controlo e acessibilidade. Enquanto o arco longo exigia anos de treino e um corpo endurecido pela prática, a besta oferecia à infantaria e aos defensores de torre um sistema que, com menos preparação, transformava um soldado raso numa ameaça letal. Ao longo deste texto aprenderás como se construía, porque se desenvolveram mecanismos complexos de carregamento, que papel desempenhou nas campanhas medievais e como a sua imagem — por vezes demonizada — tem raízes históricas e culturais.

A besta: percurso histórico desde as suas origens até à atualidade

A besta nasce na China antiga e, ao longo de mais de dois milénios, difunde-se, evolui e provoca debates militares e religiosos na Eurásia. Desde os primeiros modelos repetidores até à sua convivência com arcos e, mais tarde, com as armas de fogo, a besta mantém elementos construtivos constantes que a convertem numa das armas mecânicas de maior longevidade.

Época Evento
Origens na China e primeiros desenvolvimentos (séculos V–IV a.C. — século II d.C.)
Século V a.C. Origem documentada da besta na China; a invenção é atribuída a um homem chamado Chi’in a meados deste século. Em contextos arqueológicos localizam-se formas iniciais.
Séculos V–IV a.C. Descoberta na Tumba 47 de Qinjiazui (província de Hubei) de uma besta de repetição atribuída ao Período da Primavera e Outono.
181–234 d.C. Zhuge Liang melhora o design da besta de repetição criando a nu-liano, capaz de disparar duas ou três flechas simultaneamente.
Alta Idade Média (séculos VI–X)
Séculos VI–VII d.C. Na Europa ocidental cristã aparecem evidências arqueológicas do uso de arcos (pontas de flecha associadas a túmulos merovíngios).
Século X Reaparecimento documental da besta na Europa: aparece na Bíblia do monge francês Haimo e em manuscritos finais deste século. Em contextos islâmicos (Calatalifa, Madrid) aparecem as primeiras pontas pedunculadas e encaixes tubulares (séculos X–XI).
Finais do século XI — Século XII: expansão, iconografia e normativa eclesiástica
1066 Batalha de Hastings: é possível que Guilherme o Conquistador tenha empregado bestas; encontraram-se pontas de virotes no local.
1086 Primeira referência à besta em Espanha no gravado do Beato do Burgo de Osma e nas pinturas de San Baudelio de Berlanga (Soria).
Finais s. XI — princípios s. XII Coexistência de arco e besta em Al-Andaluz (sítio de Zafranales): encontram-se pontas de setas e flechas juntamente com uma noz de osso de besta. Capitel de Saint Sernin (Toulouse) representa um demónio a esticar uma besta (símbolo de arma “diabólica”).
Século XII Uso generalizado da besta nos reinos cristãos (difusão na península). O arco fica quase restrito à caça nos reinos cristãos, enquanto em Al-Andaluz o arco continua a ser promovido para usos bélicos por doutrina religiosa. Começa a usar-se o carregamento com estribo (incorporação geral na Europa constatada no s. XIII).
1139 Segundo Concílio de Latrão: a Igreja proíbe o uso da besta contra cristãos, considerando-a arma excessivamente perigosa e cruel.
1143 Confirmação papal: o Papa Inocêncio II reconfirma a proibição contra o uso de bestas frente a cristãos, ameaçando com a excomunhão besteiros, fabricantes e comerciantes.
Finais século XII — finais do XIII: conflitos e evolução técnica
Século XII (vários marcos) Emprego de bestas em cercos e batalhas (por exemplo, cerco de Gibraltar); aparição de representações de besteiros (Claustro de Santo Domingo de Silos) e achados arqueológicos de nozes de besta em castelos como Torre Grossa de Jijona, El Castellar de Alcoy e Calatrava la Vieja. Pontas de projétil com encaixe tubular documentadas até finais do s. XII e princípios do XIII.
1195 Batalha de Alarcos: confronto entre tropas castelhanas e almóadas; o castelo de Alarcos participa no contexto bélico da batalha.
1196 Cerco à fortaleza do Castro de los Judíos (notícia documental).
1199 Morte de Ricardo Coração de Leão: ferida mortal causada por uma flecha/virote de besta no cerco de Chêlus (França).
1212 Batalha de Las Navas de Tolosa: muitas vezes considerada a introdução da besta na península pelos cruzados europeus, embora iconografia e fontes anteriores a mostrem presente desde o s. XI.
Séculos XIII–XIV: aperfeiçoamentos, normativa local e coexistência com arqueiros
Princípios s. XIII Menção de bestas “cerveras” mais potentes, com vergas reforçadas com osso ou chifre seguindo modelos recurvados de Al-Andaluz; aparecem gravuras com vergas onduladas. Evolução do escudo europeu ligada a novas táticas.
Segunda metade s. XIII Difusão do long bow inglês (durante as guerras galesas e em conflitos posteriores), que ganhará protagonismo em Inglaterra frente à besta.
1288–1290 1288: foral de Puebla de Acocer. 1290: Concelho de Toledo confirma e amplia o foral e obriga os besteiros a manter as suas bestas em bom estado.
Séculos XII–XIV Uso generalizado da besta em Espanha e na Europa ocidental; permanece como arma relevante na infantaria e cercos.
Segunda metade s. XIV Constância do guindaste (mecanismo de cremalheira) como sistema para esticar a corda da besta.
1366–1369 Primeira Guerra Civil castelhana: intervenção de longbowmen ingleses ao serviço de Eduardo de Inglaterra, partidário de Pedro I.
1367 Batalha de Nájera: uns 5.500 arqueiros ingleses demonstram grande efetividade frente a besteiros franceses.
Século XIV Extensão na península ibérica do uso da pólvora e da artilharia balística (origem chinesa, introduzida pelos muçulmanos em forma rudimentar).
Século XV — transição para a era das armas de fogo
1418–1450 Reinado de Sejong o Grande na Coreia: introdução da chu-ko-nu (sunogung) após observá-la na China.
1422–1461 Reinado de Carlos VII de França: formação de equipas especializadas de besteiros treinados, com unidades que chegaram a contar com uns 6.000 homens. 1448–1450: criação da Companhia dos francos arqueiros, talvez o primeiro exército profissional francês.
Século XV Começa o deslocamento progressivo da besta pelas armas de fogo; a besta continua presente, e alguns monarcas (por exemplo, Francisco I) mantêm unidades de besteiros para sua segurança até bem entrado o século.
Época moderna tardia, século XIX e atualidade
1894–1895 Primeira Guerra Sino-Japonesa: a chu-ko-nu é documentada pela última vez como arma comum entre tropas da Manchúria (fotografias da época).
Atualidade A besta é usada principalmente para a caça, o desporto e a coleção; persistem alguns usos militares residuais. A construção básica da besta de repetição permaneceu em grande medida inalterada, considerando-se precursora de armas automáticas modernas como a metralhadora Gatling do s. XIX.

Como se construía uma besta medieval: anatomia e materiais

A besta é uma síntese de materiais e soluções mecânicas. As suas partes principais são simples de enumerar, mas cada uma admite variações regionais e temporais que afetavam a potência e o uso tático.

Partes essenciais

  • Vergas ou palas: inicialmente madeira e chifre, com reforços de osso; em desenvolvimentos posteriores empregou-se metal para palas mais potentes.
  • Coronha ou corpo: madeira talhada que alinhava o projétil e alojaba a noz e o gatilho.
  • Noz: peça que retinha a corda esticada até que o gatilho a libertasse.
  • Gatilho (ou chave): mecanismo de disparo que libertava a corda e permitia a saída da seta.
  • Corda e seta: a corda passou de tripa a arame e, finalmente, a fibras sintéticas; a seta evoluiu para virotes metálicos capazes de perfurar cota de malha.

BALLESTA MEDIEVAL

Madeiras, chifres e metal: a busca de potência

A combinação de camadas de madeira com tendões e reforços de chifre proporcionava palas recurvadas eficientes. As bestas cerveras reforçadas com osso ou chifre seguiam designs que aumentavam a energia armazenada e, consequentemente, a velocidade do virote. Com a introdução de palas metálicas e sistemas de torno ou guindaste, a potência disparou.

Mecanismos de carregamento: engenho para dobrar a resistência

A tensão da corda era o fator limitante: quanto maior era a tensão, maior a energia do disparo, mas maior a dificuldade de carregamento. Daí que as inovações se concentrassem em sistemas de ajuda ao carregamento.BALLESTA MEDIOEVO

Tipos principais de carregamento

  • À mão ou com gancho: sistemas primitivos onde o besteiro usava a sua força ou uma ferramenta simples para esticar a corda.
  • Estribo: o besteiro apoiava o pé num estribo dianteiro para incorporar a força da perna e do tronco. Apareceu na Europa e popularizou-se entre os séculos XII–XIII.
  • Guindaste (torno com cremalheira): manivela que multiplicava a força; permitia esticar palas muito potentes à custa de uma recarga mais lenta.
  • Torno e roldanas: sistemas maciços que requeriam uma armação e várias mãos para esticar; eram usados na defesa de fortificações e máquinas de cerco pela sua enorme potência.

Tipos de bestas e o seu papel tático

Não existe uma única besta medieval: os modelos variavam por potência, velocidade de recarga e finalidade. A seguir mostramos uma tabela comparativa que facilita ver diferenças chave entre tipos representativos.

Tipo Comprimento lâmina (aprox.) Época Uso tático
Besta de mão (dois pés) 30–60 cm Séculos X–XII Infantaria ligeira; recarga rápida mas menor potência.
Besta com estribo 50–80 cm Séculos XII–XIV Versátil: bom compromisso entre potência e facilidade de uso.
Besta de guindaste 60–90 cm Segunda metade s. XIV Alta potência para defesa de muralhas e alvos blindados.
Besta de torno (torno de roldanas) 70–100+ cm Séculos XIV–XV Uso em cercos e postos defensivos; máxima penetração à custa de lentidão.
Besta de mão (dois pés)
  • Comprimento lâmina: 30–60 cm (aprox.)
  • Época: Séculos X–XII
  • Uso tático: Infantaria ligeira; recarga rápida mas menor potência.
Besta com estribo
  • Comprimento lâmina: 50–80 cm (aprox.)
  • Época: Séculos XII–XIV
  • Uso tático: Versátil: bom compromisso entre potência e facilidade de uso.

A seta, o virote e a ciência da penetração

Os projéteis de besta não eram simplesmente flechas mais curtas: as suas pontas robustas foram desenhadas para transferir energia para um ponto estreito que quebrasse malhas e atravessasse couro ou chapa metálica. As pontas piramidais ou romboidais concentravam a força; as pontas largas buscavam o rasgar. A evolução para pontas metálicas com encaixe tubular ou pedunculado melhorou a capacidade de ajuste e a resistência ao impacto.

Fatores que determinam a penetração

  • Velocidade inicial: depende da tensão e elasticidade das palas e da massa do virote.
  • Massa do virote e design da ponta: virotes mais pesados mantêm energia de impacto; as pontas endurecidas e afiadas facilitam a penetração.
  • Ângulo e distância: os impactos perpendiculares e a curta-média distância maximizavam a eficácia.

Ballesta medieval

Mitos, igreja e a reputação “diabólica” da besta

A severa condenação eclesiástica contra o uso de bestas em combates entre cristãos (segundo Concílio de Latrão, 1139) não foi somente uma reação moral: foi uma resposta a uma transformação do campo de batalha. A besta permitia a soldados de baixa origem infligir danos letais à cavalaria nobre sem o devastador treino que o arco requeria. Essa democratização da letalidade alterou a ordem social que a guerra cavalheiresca mantinha.

Realidade ou exagero?

As fontes religiosas e literárias da época empregaram linguagem moral e simbólica. Embora tenha existido preocupação com o seu uso contra cristãos, a arma continuou a ser empregada em cercos, defesa de cidades e escaramuças; os reinos também a adotaram pela sua utilidade estratégica.

Besta vs arco: o eterno debate tático

Comparar besta e arco não é só medir potência e cadência. É comparar modelos logísticos: o arqueiro é móvel, de alto ritmo e requer treino rigoroso; o besteiro pode ser treinado rapidamente, é mais preciso pela sua mira e mantém a corda esticada até ao disparo.

  • Cadência: arqueiro experiente: até 10 flechas/min; besteiro com besta pesada: 1 virote/min (embora haja exceções como a chu-ko-nu na Ásia).
  • Potência: bestas com torno ou guindaste superavam em potência muitos arcos, sendo capazes de perfurar cotas de malha e placas a distâncias respeitáveis.
  • Perfil logístico: a besta exigia peças de reposição (cordas, nozes, virotes) e, nos modelos mais potentes, apoio humano para carregar; o arqueiro dependia do treino e saúde do próprio soldado.

A chu-ko-nu: a besta que muda a regra do ritmo

BALLESTA MEDIEVAL

Na China apareceu uma variante que quebrava a dicotomia potência/ritmo: a chu-ko-nu, besta de repetição que combinava um depósito de virotes com um mecanismo de alavanca. Embora a sua potência fosse menor, a sua cadência de fogo permitiu concentrar projéteis rápidos sobre alvos expostos, uma solução engenhosa que sobreviveu como arma utilitária até aos tempos modernos.

Uso tático: onde a besta brilha

As bestas foram especialmente eficazes em:

  • Defesa de muralhas e torres: a precisão e a potência a curta distância tornava-as letais contra abordagens e escaladas.
  • Cercos: disparos entrincheirados de seteiras ou plataformas elevadas.
  • Escarumuças: quando a munição pesada necessitava neutralizar cavalaria ou deter cargas.

Manutenção, montagem e segurança

Uma besta era também um instrumento sensível: as cordas deviam ser mantidas untadas e esticadas, as palas livres de rachas e a noz ajustada. A má manutenção podia causar falhas catastróficas: ruturas na colher de lançamento ou fraturas na pala que feriam o besteiro. Por isso, os besteiros especializados não só disparavam como conservavam e reparavam as suas armas.

Réplicas modernas, uso em recreação e normativa

Hoje existem réplicas históricas e bestas desportivas. As réplicas buscam fidelidade estética e funcional, mas é importante distinguir entre uma réplica de exposição e um modelo funcional desenhado para tiro ou caça. As leis de cada país regulam o seu uso; em muitos lugares a besta para caça está sujeita a permissões específicas.

Réplicas e modelos: o que procurar numa reprodução fiel

Se te interessa uma réplica de besta medieval, procura precisão nos detalhes: coronha talhada, noz funcional, adequada reprodução de palas e virotes. Uma réplica bem feita transmite sensações reais da época e permite entender melhor a ergonomia e limitações da arma.

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Comparativa rápida para colecionadores e recreadores

Aspeto Réplica histórica Modelo desportivo moderno
Fidelidade Alta: materiais e estética históricas Média–baixa: prioriza-se ergonomia e materiais compostos
Segurança Depende do fabricante; pode requerer limitações de uso Alta: sistemas modernos de segurança e matéria plastificada
Manutenção Alta: madeira, chifre e tendão requerem cuidados Baixa: materiais sintéticos mais resistentes
Réplica histórica
  • Fidelidade: Alta
  • Manutenção: Alta
  • Uso recomendado: Exibição e recreação controlada
Modelo desportivo moderno
  • Fidelidade: Média–baixa
  • Manutenção: Baixa
  • Uso recomendado: Tiro e caça onde a normativa o permita

Lições que a besta ensina ao amador e ao investigador

A besta medieval obrigou a repensar a guerra e a tecnologia: ensinou que a mecânica e a organização podem igualar a força bruta, que uma melhoria no sistema de carregamento muda as táticas e que a tecnologia, por si só, condiciona normas sociais e morais. Para o investigador, os seus restos — pontas, nozes, representações iconográficas — são chaves para reconstruir técnicas de guerra e redes de comércio na Idade Média.

Fontes arqueológicas e achados chave

Os fragmentos recuperados em castelos, necrópoles e jazigos islâmicos e cristãos permitem traçar a difusão de técnicas. As pontas de encaixe tubular ou pedunculado, as nozes encontradas em fortalezas e as representações em capitéis ou códices são pequenos testemunhos de uma tecnologia que se adaptou a distintos teatros bélicos.

Uma última olhada ao legado

A besta não desapareceu por obsolescência imediata; foi suplantada gradualmente por uma nova tecnologia (as armas de fogo) que também mudou táticas, logística e normas. No entanto, a besta deixou uma pegada indelével: democratizou o dano à distância, impulsionou a inovação mecânica e deixou um legado material e cultural que hoje se reconstrói em museus, coleções e réplicas.

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