O que une uma folha de aço forjada para o duelo e uma planta que cresce nas encostas de Oaxaca? O termo espadim encerra dois mundos: o da espada leve que dominou os duelos e o de um agave que deu identidade a um dos mezcais mais consumidos. Neste artigo, irá explorar ambos os significados com rigor histórico, técnica de combate, botânica e a pegada cultural que ambos deixaram em armas e paladares.

O gancho: uma lâmina que fala de velocidade e precisão
Imagine um salão iluminado por velas, dois oponentes presos à honra e, nas suas mãos, uma ferramenta de decisão: o espadim. Não é uma espada para cortar troncos; é um instrumento de estocadas rápidas, precisão cirúrgica e jogo de pés. Essa mesma imagem de fio e forma inspirou aqueles que batizaram o agave com folhas semelhantes a pequenas espadas, o espadim botânico.
O que é o espadim (arma branca)
O espadim, tal como definido nos séculos XVII e XVIII, é uma espada leve, rígida pela sua secção transversal triangular, com um comprimento de lâmina que geralmente varia entre 1,09 e 1,14 m e um peso aproximado de 750 g. A sua missão principal era a estocada: entrar e sair rapidamente, esquivar o ataque rival e finalizar o duelo. Essa especialização torna-o uma peça-chave para entender a evolução das armas brancas civis e a futura esgrima desportiva.
Design e anatomia
A lâmina de secção triangular confere rigidez torsional: é plana em duas faces e com um lombo e um ápice definido. Esta geometria permite transmitir a força da estocada de forma direta ao ponto sem deformações apreciáveis, algo indispensável num confronto onde cada centímetro conta. O punho costuma apresentar anéis laterais ou conchas separadas que protegem a mão sem adicionar demasiado peso nem complexidade.
Técnica e uso em combate

O espadim exige um estilo de combate baseado na rapidez dos pés, no controlo do centro de gravidade e na precisão na ponta. O porte clássico favorece movimentos de esgrima: avanço, retirada, convite e estocada. Ao contrário das espadas mais largas, não é usado para cortes contundentes; a sua eficácia reside na estocada profunda e na capacidade de esquiva.
O espadim na cultura e no uniforme
No século XVIII, o espadim passou de arma de duelo a acessório de etiqueta. Os cavalheiros e oficiais exibiam-no como parte do traje, por vezes mais ornamental do que funcional. Diferentes casas reais ou corpos militares empregavam metais preciosos nos punhos para denotar posição e distinção.
A árvore genealógica: do roqueiro ao florete e à espada moderna
O espadim surge como evolução da espada roqueira francesa, com um foco em armas mais leves. Por sua vez, o espadim deu origem a variantes para treino, como o florete, ferramenta decisiva na transição para a esgrima moderna. A busca pela segurança na prática desportiva levou à modificação de pontas e geometrias, até chegar à espada de esgrima com ponta romba, própria das competições.
O espadim e a sua cronologia
De seguida, encontrará uma cronologia condensada com marcos que assinalam a evolução do espadim como arma e como peça de fardamento.
| Época | Evento |
|---|---|
| Finais do século XVII | |
| Finais do século XVII | Em França, é concebida uma espada mais leve, o espadim, que se difundirá amplamente no século seguinte. |
| Século XVIII | |
| Primeira metade do século XVIII | O espadim torna-se de uso generalizado. As primeiras lâminas eram do tipo colichemarde (largas no primeiro terço e muito estreitas no resto); este estilo perdurou até ao primeiro terço do século XVIII. |
| Com a chegada de Filipe V (início século XVIII) | A moda francesa introduz o espadim em Espanha, substituindo a espada roqueira no traje de cavalheiros e fidalgos. |
| Século XVIII (uso civil) | O espadim é habitual no traje civil de títulos e classes urbanas (nobres, cavalheiros donzéis, cidadãos honrados, burgueses de Perpinhão). É descrito pelo Almirante como um “inofensivo e conhecido espeto” comum no século XVIII. |
| Durante todo o século XVIII | Os espadins não se diferenciavam em destino militar, salvo pelo metal dos punhos: prata para a Casa Real, metal dourado por concessão real para a Armada e ferro para o Exército. |
| Meados do século XVIII | As espadas militares de cinto evoluem até se equipararem aos espadins cortesãos. Documentam-se exemplares com ricasso “primitivo” (um com o número “1740”). |
| Segunda metade do século XVIII | O uso de espadins com ricasso “primitivos” no uniforme militar generaliza-se. Uma Ordem de 1785 proíbe espadins e fivelas de luxo para chefes e oficiais. |
| Finais do século XVIII | Em finais do século, predominaram os espadins com ricasso, embora as formas sem ricasso, influenciadas pelo “estilo império”, começaram a generalizar-se no próprio fim de século, impondo-se plenamente no início do século XIX. |
| Anos finais do século XVIII — inícios do século XIX | |
| 1793 | Durante o reinado de Carlos IV, as Ordenanças de 1793 já consignam punhos dourados nas espadas do Exército e da Armada. |
| 1803 | O Regulamento de Cavalaria de 1803 prescreve que os oficiais de cavalaria usarão o espadim com cinto preto lustroso e ganchos de aço em “todos os demais atos”. É aprovado um design de punho dourado mais militar; o modelo definitivo para oficiais estava pendente de aprovação. |
| Século XIX (desenvolvimento isabelino e mudanças regulamentares) | |
| 1833–1843 | Após a Guerra Civil e com a instauração do governo efetivo de Isabel II (pessoalmente em 1843), aparecem as “espadas de cinto ‘isabelinas'” (espadins) para atos de corte e beija-mãos. |
| Década de 1840 | Surge o espadim ou espada de cinto “isabelina”. Oficiais do Corpo de Artilharia adotam a “espada isabelina” com o modelo 1843. |
| Década de 1850 | O uso das espadas “isabelinas” alterna com sabres de tirantes; esta prática perdura até o século XX. O “Dicionário Militar” (1863) descreve o espadim como arma comum entre a oficialidade de institutos montados e corpos facultativos fora de atos de serviço. |
| 30 de janeiro de 1867 | O uso da espada “isabelina” para oficiais de Infantaria cessa com a aprovação da espada de cinto Modelo 1867. |
| 1871 | Uma “espada isabelina” figura na tarifa como “Espada de cinto para Oficial de Cavalaria, modelo 1851”. |
| 16 de maio de 1887 | Por Ordem Real (C.L. nº204), é autorizado a chefes e oficiais de Cavalaria a usar o espadim de cruz que usavam anteriormente, o que sugere que o seu uso pode ter sofrido uma interrupção temporária. |
| 1889 | O modelo 1867 de espada de Oficial de Infantaria é substituído por um modelo de sabre. |
| Século XX — recuperação e uso contemporâneo | |
| 1901 (14 de setembro) | Por Ordem Real (C.L. nº219), é reconhecida a necessidade de um espadim para chefes e oficiais de Infantaria, autorizando o seu uso voluntário em determinados atos não militares para substituir o sabre regulamentar. Os oficiais de Infantaria recuperam o espadim “isabelino” com um novo modelo. |
| Inícios do século XX | O uso da espada “isabelina” no Corpo de Artilharia manteve-se sem interrupção até princípios do século XX. |
| Atualidade e legado | |
| Actualidade | A espada moderna de esgrima desportiva deriva do espadim. O florete foi criado como variante do espadim e hoje é uma das três armas da esgrima desportiva moderna. O espadim em si não fez parte das três armas clássicas da esgrima, mas foi uma espada popular do século XVIII cujo design influenciou as armas de prática e desporto posteriores. |
Lâmina, equilíbrio e materiais: anatomia técnica comparada
Aqui resumimos numa tabela comparativa as características essenciais do espadim em relação a outras armas relacionadas para que visualize rapidamente as suas vantagens e limitações.
| Tipo | Comprimento lâmina (aprox.) | Peso | Uso tático |
|---|---|---|---|
| Espadim | 1,09–1,14 m | ~750 g | Estocadas rápidas, alta capacidade de manobra, não adequado para cortes potentes. |
| Espada de combate | 0,90–1,30 m | ~1 kg | Versátil: golpes e estocadas, variedade de punhos. |
| Florete | 0,90–1,10 m | Leve | Treino e esgrima desportiva; ponta romba para segurança. |
| Espada de esgrima (épée moderna) | ~1,10 m | Variável, projetada para competição | Ponta romba, sistema elétrico de pontuação, focada em estocadas. |
- Espadim
-
- Comprimento da lâmina: 1,09–1,14 m
- Peso: ~750 g
- Uso: Duelos e cinto; estocadas precisas.
- Espada roqueira
-
- Comprimento: 0,90–1,30 m
- Uso: Versátil, golpes e estocadas.
Variantes cerimoniais e de treino
Além da versão funcional para duelo, existem exemplares cerimoniais usados em atos solenes e versões de treino (florete). As réplicas cerimoniais priorizam a estética: gravuras, acabamentos dourados e bainhas trabalhadas, enquanto as réplicas funcionais mantêm geometrias e têmpera para serem usadas com segurança em práticas controladas.
Réplica e acessórios
Os aficionados da recriação histórica e da esgrima clássica procuram réplicas que respeitem as proporções do espadim: lâmina de secção triangular, peso equilibrado e punho que permita uma pega segura. Para conservar uma réplica funcional, é imprescindível conhecer a têmpera do aço e manter a lâmina livre de corrosão com limpeza e óleo protetor.
O espadim como símbolo: do armário à cerimónia
Com o passar do tempo, o espadim ganhou um papel simbólico em uniformes militares e académicos. Tornou-se uma marca de posição e tradição, presente em desfiles e cerimónias. As versões modernas cerimoniais costumam ser mais pesadas e ornamentadas, adaptadas ao protocolo mais do que ao combate real.
O outro espadim: Agave espadim e o seu papel no mezcal
Numa reviravolta de linguagem natural, espadim também é a denominação comum do Agave angustifolia, uma planta que cresce em regiões do México e que é a base do mezcal espadim. As suas folhas longas e pontiagudas evocam a forma de uma espada, daí o nome. Este agave é apreciado pela sua adaptabilidade, produtividade e perfil aromático que confere complexidade ao destilado.
Botânica e cultivo
O agave espadim é monocárpico: floresce uma vez e morre depois de frutificar. O seu ciclo de maturidade varia entre 6 e 12 anos, dependendo das condições climáticas e das práticas agrícolas. É amplamente cultivado em Oaxaca (Sierra de Juárez), Guerrero e Puebla. A sua tolerância a solos pobres e clima semiárido torna-o a escolha natural para a produção tradicional de mezcal.
Características organolépticas do mezcal espadim
O mezcal elaborado com espadim geralmente apresenta notas fumadas e terrosas complementadas com nuances frutadas (pera, maçã) e herbáceas (menta, hortelã). O seu equilíbrio entre doçura final e ligeiro amargor torna-o adequado tanto para consumo individual como para degustações guiadas nas quais se exploram nuances por região e processo de destilação.
Aclarando dúvidas sobre o espadim, a espada roqueira
Qual é a principal diferença entre o espadim e a espada roqueira?
A diferença principal entre o espadim e a espada roqueira reside no seu design de punho e no seu uso: a espada roqueira, surgida no século XV, tem uma variedade mais ampla de punhos e é mais pesada (cerca de 1 kg), com uma lâmina de 90 a 130 cm orientada para um manuseamento dinâmico que combina estocadas e golpes; enquanto o espadim, que apareceu depois no século XVII, caracteriza-se por ter anéis laterais ou conchas separados do punho e uma lâmina mais leve (cerca de 750 g) de 1,09 a 1,14 m, projetada principalmente para estocadas rápidas e duelos, sendo menos adequada para golpes.
Como se originou o nome “espadim” para o agave?
O nome “espadim” para o agave originou-se devido à forma das suas folhas, que simulam uma espada: são longas, estreitas e com bordas espinhosas. Esta característica visual levou a que lhe fosse dado este nome, fazendo referência direta à forma de “espada” que as suas folhas apresentam. Além disso, o seu nome científico, Agave angustifolia, também alude às suas folhas angostas (“angusti” significa estreito em latim). Por isso, o termo “espadim” reflete tanto a forma como a proporção estreita e alongada das suas folhas.
Que características tornam o espadim ideal para duelos?
O espadim é ideal para duelos devido à sua leveza (cerca de 750 g), rigidez conferida pela sua lâmina de secção triangular, e o seu comprimento (entre 1,09 e 1,14 m), que favorece a eficácia em estocadas. Estas características permitem grande habilidade para esquivar e atacar de forma rápida e precisa, embora não seja adequado para cortar. O seu design torna-o excelente para o manuseamento ágil e a defesa em combate direto, o que o converteu numa arma mortal em duelos. Além disso, a sua lâmina rígida facilita manobras precisas e com controlo, fundamentais para o duelo.
Cuidados, manutenção e conservação de uma réplica funcional
Para manter uma réplica de espadim em bom estado, convém limpá-la após o uso, eliminar restos de humidade e aplicar uma fina camada de óleo protetor. Evitar golpes fortes e armazená-la num local seco previne a corrosão. Em réplicas cerimoniais, a limpeza foca-se em preservar acabamentos e dourados.
Leitura prática: como interpretar uma réplica face a um original histórico
Ao comparar uma réplica com um original, é crucial rever proporções, secção da lâmina, têmpera e técnicas de fixação do pomo e guarda-mão. As réplicas modernas podem usar aços inoxidáveis ou tratados para maior resistência, enquanto os originais geralmente mostram reparação, têmpera e pátina própria do uso.
Para quem procura entender o espadim pela paixão e pela técnica
O espadim oferece uma lição sobre como a função dita a forma. O seu design revela uma era onde o duelo era um mecanismo social e a destreza com a ponta era uma habilidade valorizada. Do mesmo modo, o agave espadim lembra-nos que a palavra pode viajar da guerra para o campo e enraizar-se numa tradição gastronómica.









